07042017luis-elefante-velho

Elefante velho sabe quando o fim se aproxima

No segundo casamento sentiu o sabor doce da felicidade. Júlia, promotora de Justiça, o deixou nas nuvens

Luís Alberto Alves

Gumercindo era profissional pau para toda obra. Começou a trabalhar com 13 anos. De manhã no batente, de noite na escola, de onde saia às 23h30. Antes de chegar em casa, percorria a pé, depois de chegar ao final do ônibus, quase um quilômetro na escuridão e lama, quando chovia, pois, inexistia iluminação pública onde morava.

Trabalhou duro durante quase 50 anos. Fracassou no primeiro casamento que consumiu 14 anos de sua vida, quando várias vezes ficou perto de conhecer a morte. A primeira esposa tinha personalidade de psicopata. Mas se manteve de pé. Para sua sorte não tiveram filhos. O divórcio lhe serviu de tábua de salvação.

Torneiro mecânico de mão cheia, trabalhou em grandes empresas ganhando bons salários. Nas horas de folga tocava teclados. Admirador do ícone da Black Music, Herbie Hancock, sabia como poucos tocar os grandes sucessos do Blues, Soul e Funk dos Estados Unidos das décadas de 60,70 e 80.

No segundo casamento sentiu o sabor doce da felicidade. Júlia, promotora de Justiça, o deixou nas nuvens. Apesar do estresse da profissão, lhe cobria de carinhos e palavras doces. O casal viajava sempre nos finais de semana. Adolescentes, colegas do filho do primeiro casamento dela, se impressionavam com os abraços de ambos.

Após dez anos juntos, Gumercindo começou a desacelerar a velocidade da sua vida. Deixou de tocar teclados. Guardou numa caixa as diversas partituras que lhe acompanhava há anos. Já não tinha o mesmo pique de passear ao lado da esposa amada.

Profissionalmente estava realizado. Ganhava boa aposentadoria, que aliado ao serviço de consultoria que prestava no mercado, proporcionava excelente padrão de vida. Às vezes sentia  como se Deus já estivesse preparando o caminho para ir aos Céus e ali permanecer eternamente. Tinha convicção de que o fim chegava.

Sutilmente passou a comentar com Julia que o fim da corrida dele vinha ao seu encontro. Numa noite deixou bem claro a ela, que a morte se aproximava. Não conseguia detectar o dia e ano, mas o rastilho de pólvora fora aceso. Ela não levou a sério a conversa.

Porém, certo dia pediu que determinados objetos pessoais dele fossem entregues a um grande amigo. Enfim montou uma lista de endereços, com telefones e nomes, acompanhado de instruções para deixar seus livros, revistas, instrumentos musicais e discos de vinil.

Os dias passaram. Como elefante velho, se afasta da manada para o último e eterno sono; os olhos de Gumercindo ganharam um brilho diferente. Era como se estivesse visualizando sempre o horizonte, seguido de tristeza. Olhava para o enteado no primeiro ano de engenharia na USP (Universidade de SP) e sabia que não o veria na tão sonhada formatura.

Sai ano e entra ano, o fim da viagem não terminava. Julia esqueceu dos alertas do esposo amado. Acreditava que era a crise dos 60 anos. De sentir esquecido pela sociedade, após derramar muito suor pelo progresso deste País. Era um sábado lindo, ensolarado, temperatura amena, os pássaros cantando no quintal da casa.

Na varanda, ele pede para deitar no colo de Julia. Relembra os primeiros meses de namoro, o casamento, as batalhas vencidas juntos, a fé de que Deus nunca os deixaria sozinhos. De repente Gumercindo sente frio e abraça sua amada pela cintura, suspira e sussurra: “te amarei sempre minha menina”. Fechou os olhos e acordou num jardim iluminado, onde não existia noite e dia, e as ruas eram de ouro….

 

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