27042017luis-greve-bancarios-1985

Greve é direito legítimo do trabalhador

Numa das assembleias alguém sugeriu criar uma faixa com os dizeres: “Comissão de Esclarecimento”

Luís Alberto Alves

Geraldo Alonso, agora com 70 anos, ao ver a notícia da greve geral de 28 de abril, voltou ao passado, época de gerente  no extinto Banco Real, na região da Avenida Paulista. Era época da hiperinflação. Mensalmente este dragão passava dos 50 ou até 60%. Preços eram remarcados diariamente.

Naquele tempo o sindicato dos Bancários de SP ficava na Rua São Bento, Centro Velho de São Paulo. Os banqueiros deitavam e rolavam, porque a categoria dificilmente se mobilizava na década de 1980. Toda a greve era um fracasso, principalmente por causa da PM que descia o cassetete nos funcionários que impedissem a entrada de outros ao serviço.

Mas aquele ano de 1985 reservou uma surpresa. Nos vários encontros realizados por todo o País, o estopim foi aceso. Numa das assembleias alguém sugeriu criar uma faixa com os dizeres: “Comissão de Esclarecimento”. Os grevistas deveriam segurá-la na porta do banco e dizer os motivos da paralisação.

Um dia antes, Geraldo reuniu seu pessoal na agência e disse que não pegaria no pé de ninguém. A consciência é individual. Ele estaria no trabalho, por ocupar cargo de confiança, mas estaria torcendo pelo sucesso da greve. Aos 48 anos viu o movimento ganhar as ruas e uma multidão lotar a Praça da Sé durante assembleia.

Comparou os telejornais da véspera desta greve geral de 28 de abril com os de 1985, acusando os bancários de baderneiros, desocupados e inimigos do trabalho. Já aposentado, Geraldo percebeu que o discurso patronal e do governo nunca mudam. Sempre batem na mesma tecla de que cruzar os braços, exigindo cumprimento de direitos é algo surreal.

Lembrou da Justiça favorecendo os banqueiros, mesmo com 760 mil bancários paralisados e grande número de agências sem funcionar. Os jornais e até as revistas semanais se renderam em reportagens extensas e fotos de capas: os bancários fizeram uma das maiores greves da categoria.

Ao recordar de tudo isso, Geraldo pegou o neto no colo, olhou para o Parque da Aclimação, ignorou a garoa que caía em São Paulo, tomou uma xícara de chá e profetizou que greve legítima é sucesso, mesmo remando contra a maré do governo Michel Temer e grande imprensa.

 

 

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