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Dependência tecnológica do mundo virtual

Tomam café da manhã de olhos e mãos nos celulares, almoçam e jantam da mesma forma

Luís Alberto Alves

Fausto é o exemplo de viver plugado. A primeira dose tecnológica foi com o finado Orkut. Não parou mais. À medida em que os celulares avançavam, não perdia tempo nem dinheiro. Renovava. O importante é não perder nada do mundo virtual. Passa mais tempo dentro de casa, quando de folga, do que nas ruas.

Para unir o agradável com o bom, conheceu Flavinha, também ligadíssima em internet. Conhece a maioria das redes sociais. Perdeu a conta do número de colegas virtuais. Despreza qualidade. O que vale é a quantidade. Ao lado de Fausto, é difícil saber quem é mais dependente tecnológico.

Ambos tomam banho com os celulares ligados. Tiram selfies debaixo do chuveiro. Enfim procuram não perder nada do que acontece na internet. Tomam café da manhã de olhos e mãos nos celulares, almoçam e jantam da mesma forma. Quando fazem sexo, ele por baixo, o celular registra o orgasmo.

No trabalho de corretores de imóveis, atendem aos clientes, a maioria da geração Y, sempre plugados. Ao sair a confiança é total no GPS ou no Waze. Seguem cegamente o que os dois indicam. Mesmo quando passam em regiões violentas. Ignoram. Jamais ouvem conselhos dos familiares mais velhos. Os chamam de caretas e retrógrados.

Os aparelhos deles são repletos de aplicativos. Para fazer comida, Flavinha recorre às receitas existentes no youtube. A vida deles é completamente restrita à tecnologia. Livros de papel, na opinião de ambos, deveriam ser extintos. Na tela do tablet é melhor para ler, além de não ocupar espaço na estante.

Mas como diz Jesus Cristo, o dia mau vem para quem é bom ou ruim. Num final de semana ladrões entraram na casa que Fausto mora, em Vila Madalena, perto do bairro de rico, Alto de Pinheiros, onde mora o presidente Michel Temer. Os bandidos amarraram o casal e os deixaram nus.

Não contentes, colocaram os dois dentro de um furgão para executarem na Serra do Mar. No caminho mudaram de ideia. Iriam deixá-los pelados dentro do mato, sem nada. Assim fizeram. Perdidos, passaram a procurar ajuda até encontrar um homem cortando madeira.

Pensaram que estavam no mundo da internet. Tudo que perguntavam não recebiam resposta. Principalmente se ele tinha celular ou fazia parte de alguma rede social. De bom coração, os levou para um barraco perdido na serra. Ali não tinha nada tecnológico. Nem luz, chuveiro ou qualquer luxo existente na cidade grande. O lampião iluminava tudo. O fogão era de barro, abastecido com pequenas toras de madeira.

Banho se tomava com balde de água fria, retirada do poço. Esteira ocupava o lugar de camas. Nem relógio o mateiro tinha. Olhava para o céu e dizia as horas. Ficaram ali perto de uma semana. O silêncio era total. Descobriram que o mateiro que os socorreu encontrando perdidos já havia trabalhado na Bolsa de Valores de SP. Cansado da loucura da cidade grande, deixou tudo para trás, até a mulher e filhos.

Jurou a si mesmo permanecer distante dos luxos da civilização. Já fazia 20 anos e não sentia saudade dos almoços e jantares que participava nos restaurantes de grifes dos Jardins, na capital paulista. Segundo ele, a vida no mato expulsou do seu corpo a dependência em medicamentos e até mesmo da parafernália existente na maioria das casas.

Após uma semana, pegou Fausto e Flavinha e os levou até um trecho da Estrada Velha de Santos. Orientou em que direção deveriam andar. Logo encontrariam carona e voltariam à civilização. No retorno à barulheira de final de semana provocada pelos inúmeros bares de Vila Madalena, o casal sentiu sossego dos dias passados no mato. Lembraram que a mente tinha começado a ficar livre da dependência tecnológica. Resolveram prestar mais atenção à vida real e aos poucos amigos reais que ainda resistiram durante a fase de vício no virtual.

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