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Quando ilusão cega os olhos

Era a maranhense Nalva. Bela de rosto e corpo, olhos castanhos e bem branca

Luís Alberto Alves

Mauricio era um bem-sucedido empresário no ramo imobiliário. Há muitos anos no mercado, conseguia vender até geladeira para esquimó. Não tinha medo da palavra crise. Atravessou de braçadas a época em que o Brasil vivia a hiperinflação. Mesmo assim vendia apartamentos e casas de luxo como se comercializa pipoca na porta de cinema.

Bem casado há mais de 40 anos com a morena jambo Janete, era pai de dois casais de filhos. Todos já adultos, formados em Harvard, nos Estados Unidos, e cada um desfrutando de sua vida, sem lhe tirar o sossego. No escritório central da empresa, em Higienópolis, bairro famoso por servir de QG para a população judia no Brasil, tratava todos os funcionários com educação. Ao chegar, cumprimentava um a um, sem esquecer dos faxineiros.

Ao chegar, notou a presença de funcionária nova na recepção. Era a maranhense Nalva. Bela de rosto e corpo, olhos castanhos e bem branca. Logo seus lábios finos lhe chamou a atenção, inclusive o sotaque típico da terra do “coroné” José Sarney. Estendeu a mão e lhe deu boas-vindas. Entregou seu cartão e mostrou sua sala. Caso tivesse alguma dúvida séria, não precisava ter medo. Bastava bater na porta.

Os meses passaram e Nalva, com seus 26 anos, não lhe saia da mente. Mesmo ao fazer amor com sua amada Janete, na hora do orgasmo visualizava ela na mente. Parecia sentir encostando seu rosto naquela pele branca. Vivido. Imaginou que fosse cansaço. Viajou com a esposa para o Tahiti. Mesmo ali, a imagem de Nalva não saia de seu pensamento.

Numa sexta-feira a chamou em sua sala. Conversou muito tempo com ela. A respeito de tudo. Soube que a jovem era solteira e carregava a sina de todas as mulheres de sua família morrerem solteiras e sem filhos. Ter um tornou-se obsessão para Nalva. Mas não conseguia namorado. Sua beleza servia de barreira para qualquer pretendente.

Passou a sair com ela. Nos primeiros encontros não fizeram sexo. A tratou como dama. Apenas jantavam, dançavam e depois, para não levantar qualquer suspeita junto a Janete, lhe pagava o táxi que a levava ao Jardim Miriam, Zona Sul de São Paulo, onde morava na companhia de uma tia viúva, e já idosa.

Num dia da semana resolveu sair com Nalva. Avisou em casa que chegaria tarde, pois iria visitar clientes de grande poder de fogo financeiro e chegaria bem tarde. No carro já tinha uma peça de roupa de reserva. Reservou a cobertura de um hotel de luxo na região da badalada avenida engenheiro Luis Carlos Berrini.

Discretamente a despiu. Percorreu lentamente o belo corpo da jovem. Sentiu o delicioso aroma do perfume que Nalva usava. Transaram várias vezes. A partir daquela noite, passaram a se encontrar com frequência. O prazer deixava Maurício cada vez mais apaixonado. A cobriu de joias, roupas de grife e lhe deu até um GM Onix do ano.

Pela primeira vez pensou em abandonar Janete e viver a felicidade plena ao lado daquela deusa que entrou para recepcionar seus clientes na sua empresa e deixar o local mais bonito. Ignorou que já havia passado a barreira dos 65 anos. Por causa do tempo como jogador de basquete universitário, ainda tinha muito fôlego para encarar os 26 anos de Nalva.

Porém mantinha o cuidado de separar o profissional do sentimental. No trabalho, ele se comportava como bom patrão e ela no papel de funcionária exemplar, o tratando com respeito, sem cometer nenhum deslize. Um dia, Nalva pediu para sair mais cedo. Precisava fazer alguns exames de rotina. Preocupado, sugeriu um amigo seu, médico da elite.

Respeitosamente sua amada aceitou a recomendação. A consulta era salgada. Mas Maurício fez a intermediação e ela não gastou um centavo. Tudo correu bem. Quando saíram os resultados, sutilmente perguntou ao amigo o que Nalva sentia. Antes explicou que ambos estavam se amando. Esse era o motivo da preocupação.

Ouviu o que não sonhava saber. Sua deusa não teria vida longa. Tinha um câncer raro e violento ganhando corpo dentro dela. Mesmo com quimioterapia, em questão de meses ela morreria. Maurício perdeu o chão. Tentou ignorar o veredicto. Resolveu pagar para ver. Com o decorrer dos meses, Nalva passou a faltar ao serviço para fazer tratamento.

Pouco tempo depois pediu licença médica. Mesmo internada num hospital frequentando por milionários, a morte começou a se aproximar lentamente. Numa tarde de sexta-feira, quase próximo do final do expediente veio a notícia fatal: Nalva havia perdido a batalha para o câncer. Cumpriu mais uma vez a maldição existente entre as mulheres de sua família. Morreu solteira e sem filhos…

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