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Vítima da reforma trabalhista de Michel Temer

Foi dali, em 1976, época de sua admissão, que contemplou o ônibus do Corinthians, passando pelo Vale do Anhangabaú, trazendo os jogadores que disputaram a memorável partida contra o Fluminense no Maracanã

Luís Alberto Alves

Clodoaldo era crítico dos colegas de trabalho contrários à reforma trabalhista, sancionada recentemente pelo presidente Michel Temer. Batia no peito de que o Brasil não poderia permanecer refém de leis trabalhistas da década de 1940. Os empresários eram punidos por gerar empregos e pagar inúmeros tributos ao registrar o funcionário.

Aos 15 anos, foi contratado como office boy numa tradicional corretora de valores com escritório na Rua Líbero Badaró, quase esquina com o Viaduto do Chá. Das janelas da empresa, que ficava no 20º andar, tinha ampla visão do Vale do Anhangabaú, Barão de Itapetininga, 24 de maio, Praça da República, Avenida São João. Enfim era privilegiado.

Foi dali, em 1976, época de sua admissão, que contemplou o ônibus do Corinthians, passando pelo Vale do Anhangabaú, trazendo os jogadores que disputaram a memorável partida contra o Fluminense no Maracanã, cacifando a passagem para as quartas-de-final daquele campeonato brasileiro, em que o Internacional de Porto Alegre levantou a taça de campeão. Para os corintianos, a vitória obtida no Rio de Janeiro, com estádio praticamente colorido de preto-e-branco, teve o gosto de final.

Após ocupar vários cargos, Clodoaldo chegou ao posto de gerente, a bordo de polpudo salário, e, claro, uma linda secretária que filtrava os telefonemas e nas noites de sexta-feira o levava à loucura nos motéis classe A escolhido a dedo por ela. Não tinha do que reclamar. O salário era bom. Conseguiu pagar faculdade para seus três filhos, comprou lindo sobrado na Vila Clementino e um sítio em Bragança Paulista.

Aos 42 anos de empresa, sentia-se o dono do pedaço. Aplaudiu quando o Congresso Nacional aprovou a reforma trabalhista. Crítico mordaz de sindicalistas, imaginava o que iria fazer os contemporâneos do ex-presidente Lula, fruto do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, hoje usando a nomenclatura do ABC. Para Clodoaldo esses dirigentes deveriam pegar pesado no batente, em vez de fazer greve.

Numa tarde de sexta-feira, Romildo, um dos donos da empresa, o chamou para séria reunião. Recebeu a carta de demissão. O motivo era seu alto salário e pessoas mais jovens poderiam realizar o mesmo trabalho, ganhando menos e em péssimas condições, como receber apenas pelos dias trabalhados, e caso sejam mandados embora, pegar o dinheiro do FGTS em parcelas, sem dizer, que se entrassem na Justiça e perdessem arcariam com todos os honorários e custos.

O patrão pediu a ele para pegar esse bonde. Caso deixasse para segunda quinzena de novembro iria sentir na pele os rigores da nova lei 13.467/2017. Era a oportunidade de sair por cima, igual Pelé ao pendurar as chuteiras na segunda e última vez pelo time do New York Cosmos em 1977. Quatro anos antes saiu dos campos pela primeira vez numa partida disputada em Vila Belmiro contra a Ponte Preta. Às duras penas aceitou a proposta. Percebeu tardiamente, que funcionário, independente do cargo, é apenas um número nas mãos do patrão, seja ele qual for.

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